Sabia que teria de sair mais tarde ou mais cedo. Mas bastou imaginar-se fora do quarto para que uma náusea o consumisse imediatamente.
Sabia que o calor seria insuportável, mal saísse do quarto e também sabia que todo o álcool exageradamente consumido na noite anterior o iria penalizar sem contemplações, mal os primeiros raios de sol lhe atingissem o rosto, como uma bofetada.
Olhou para os ponteiros do relógio de pulso na esperança que estivessem parados. Imaginou-os imóveis, congelados pelo ar fresco que continuava a sair furiosamente do aparelho de ar condicionado. Os ponteiros, no entanto, não lhe fizeram a vontade. Moveram-se. Sem qualquer pudor, avançavam imparáveis em direcção às oito da manhã. Tentou imaginar como seria bom se não estivesse um dia assim tão quente, mas infelizmente não o conseguiu.
Ergueu-se e, sentado sobre a cama, atreveu-se a olhar para a mulher que dormia ao seu lado, pela primeira vez desde a noite anterior. Não se lembrava nem do seu nome. Se se voltassem a cruzar, chamar-lhe-ia minha querida, amiga, xuxu, amor(zinho), linda ou algo desse género, pois há muito que transformara em arte a sua incapacidade de não se lembrar dos nomes daquelas que regularmente partilhavam a sua vida, noite após noite.
Por vontade própria, ao invés de tentar lembrar-se dos nomes, optara escolher lembrá-las por uma particularidade qualquer que lhe agradasse mais.
Assim, lembrava-se da loura da tatuagem e das louras sem tatuagens. A loura mais alta e a loura mais baixa. Das duas ruívas: a das maminhas pequenas e a ruíva gótica dos brincos e peircings por todo o lado. Entre as morenas lembrava a magrinha de cuzinho pequeno e redondo, e a outra, alta e boazuda, aerodinâmica como um avião. Enfim, isto apenas no espaço de uns dez dias, se tanto...
Voltou a deitar-se. Na verdade, tomado por um cansaço súbito e inexplicável, deixou-se tombar para trás e o seu corpo ressaltou sobre o colchão. A sua companheira de ocasião agitou-se por alguns momentos e em seguida voltou a sossegar.
Quem não sossegava, nem por decreto divino, era o relógio. Tanto assim, que às dez para as oito, imperetrivelmente como todos os dias, o alarme tocou. Deixou que o som, livre de qualquer controle se espalhasse pelo quarto e incomodasse a sua companheira.
- Caraças - protestou a morena em tom de queixa - custa-te muito estares quietinho e deixares-me dormir mais cinco minutos?
Sem saber bem porquê, deu por si a pedir-lhe desculpa. Ela resmungou mais qualquer coisa e virou-se para ele, dando-lhe a apreciar pela primeira vez (tanto quanto se lembrava) o seu rosto. A luz que entrava pelas frestas da janela foi mais do que suficiente para que ele se apercebesse logo de como ela era realmente linda.
De repente, atingiu-o. Podia ser ela. Aproximou-se mais dela. Fixou o olhar e procurou defeitos. Nada. A sua pele morena pelo sol era perfeita. Sem marcas de bikini ou fato de banho. Sem manchas ou sinais que pudessem servir de desculpa. Nua, ela era tudo.
O coração dele batia agora ao dobro do ritmo do relógio, em cima da mesa de cabeceira. A sua respiração, baixinha, acelerou-se consideravelmente.
Tocou-lhe. Com as costas da mão esquerda, muito levemente, no seio nu. Toda a pele dele se arrepiou. Era ela. Só podia ser ela.
Ao fim de tanto tempo de busca, era finalmente ela. Ganhou fôlego e ainda abriu a boca para falar mas não conseguiu emitir nenhum som. E agora, que fazer? Aceitar? Ousar apaixonar-se? Não ousou.
Uma ideia temível assaltou-o: e se, de repente, ela era uma versão feminina dele? Não resistiria.
Deixou-se ficar a olhá-la... tão nua e tão linda na luz ténue da manhã.